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Caetano Pinto Falcão - Editor Executivo da Muangolê Notícias
Fontes: " O Estado de São Paulo ", Folha de São Paulo e Rede Globo de Televisão
12 de Dezembro de 2000

Media brasileira anuncia tragédia humanitária em Angola

A tragédia que vive a população angolana foi destaque esta semana nos principais órgãos de comunicação social brasileira, imagens chocantes da guerra em Angola foram mostradas no programa " Fantástico " da Rede Globo de Televisão ( líder de audiência ao domingo ).

A reportagem intitulada " o pior país para se nascer no Mundo " foi o principal destaque do programa que teve um dos maiores picos de audiência dos últimos tempos, crianças feridas pelas minas de guerra, a grave situação de desnutrição no Cuito foram mostrada a olho nu, um país devastado, um povo que vai ao longo do tempo perdendo a noção do que é viver em paz e liberdade, um país arrasado, um povo sem esperança, um país sem rumo...

As imagens mostrada na televisão brasileira ( muito pouco sensibilizada com a tragédia angolana ), demostram que mesmo com as grandes descobertas de petróleo e o anuncio do aumento do faturamento dos diamantes em Angola, a situação do país vai de mal a pior, e nos leva a fazer a velha questão, onde vai parar o dinheiro destas riquezas?

Logo após a reportagem recebi um e-mail de um colega da faculdade ( Cassiano Cavalcanti) revoltado com o que havia assistido "Caetano, domingo vi o Fantástico, uma reportagem que me deixou estarrecido. O pior país do Mundo para uma criança nascer é a Angola. 1 em cada 5 crianças morrem antes de completar os 5 anos de idade, não tenho certeza se 1 em 3 talvez. Que guerra é esta que esta acontecendo lá? "

Outro leitor da Muangolê ( Eduardo Nelson P. Pedrosa, morador de Brasília) enviou também uma mensagem e disse : fiquei muito comovido e chocado ao ver ontem no Fantástico a reportagem sobre as mortes estúpidas que a situação em que vivem os Angolanos no período atual da guerra. Gostaria de receber e-mail contando mais detalhes e o que está sendo feito para que isso não mais continue. Tenho uma filha de 1 ano e 10 meses e pude apenas imaginar a dor e sofrimento ao pensar que minha filha poderia ser uma daquelas pessoas que passam fome, desespero, angústia, tristeza e muita, muita incerteza em saber se estará viva no dia seguinte.
Gostaria de saber se podemos ajudar de alguma forma.

Eu que sou angolano, também estou a procura destas respostas, vai saber o que passa na cabeça dos beligerantes, Angola vive uma hecatombe sem precedentes na história da humanidade.

O Mundo assiste impavidamente a destruição silenciosa, porem dolorosa de uma nação que luta por paz, mas, haja forças para agüentar este martírio.

Ainda no Domingo dois dos mais importantes jornais brasileiros, a Folha de São Paulo e " O Estado de São Paulo, deram a estampa matérias relacionadas com a atual situação humanitária de Angola, Rodrigo Uchôa - enviado especial da Folha a Angola relatou que : A situação dos angolanos, assolados pela guerra civil, assume cada vez mais contornos de tragédia. Apesar de o governo afirmar que o país está entrando em uma fase de estabilidade, nunca os mais de 10 milhões de angolanos estiveram tão dependentes dos organismos internacionais de ajuda humanitária.

Um de cada cinco angolanos fugiu de sua região de origem. Esses deslocados se juntam próximos a cidades, em campos com condições sanitárias precárias, onde grassam doenças como a malária, a doença do sono, a pneumonia e os surtos de meningite e até de poliomielite, doença praticamente erradicada nos países minimamente desenvolvidos.

Sobre a cidade do Cuíto ( capital da província do Bie ) Rodigo escreveu: A avenida principal de Cuíto, a Joaquim Kapango, parece um cenário de filme pós-holocausto nuclear: as casas estão meio derrubadas, todas tem aspecto de queijo suíço, graças às marcas de balas deixadas quando a via serviu de divisão entre o território dominado pelo governo e o território da guerrilha. Em meio aos escombros, às vezes algum morador olha para fora, curioso.

O jornalista da Folha descreveu que é um paradigma para a situação do país: não há um único médico angolano na Província - a presença do governo é percebida apenas pela intensa movimentação das tropas.

"Noventa e nove por cento dos remédios do hospital da cidade (que é dirigido pelo MSF) são fornecidos por nós", afirmou a norueguesa Rakel Ludviksen ouvida pelo repórter da Folha. Coordenadora do hospital, Rakel diz que os remédios enviados pelo governo muitas vezes são inócuos: "Às vezes nos mandam anestésicos complicados, que os técnicos de saúde não sabem usar".

"Às vezes tentamos voltar para nossas cidades para tentar recuperar algo de nossas colheitas. Muitos não voltam, são mortos no caminho", contou José Nguma, que mora em uma cabana do campo de Katabola, nos arredores de Cuíto. Ele afirma que andou três dias sem comer nada desde sua cidade até chegar ao campo de deslocados.

O nível de má nutrição média cresce nos campos, apesar de o MSF dizer que a má nutrição grave está praticamente sob controle.

"A maioria chega aqui sem absolutamente nada. E ainda corre o risco de encontrar animais perigosos pelo caminho", diz o técnico de saúde angolano Isidoro Ponssão Ngola, que funcionou como tradutor para a Folha, já que poucos no campo falavam português, e sim umbundo ou outros, dialetos da região.

Questionado sobre quem tinha saqueado sua aldeia, Nguma diz que foram "os inimigos", "os rebeldes" da Unita. Depois de conversar um pouco, ele toma mais confiança e diz que os soldados do governo entram nas casas atrás de mulheres para estuprar conclui o repórter da Folha.

Já o jornal " O Estado de São Paulo " , descreve a guerra angolana como: um conflito brutal, que já dura 25 anos e produziu uma das mais dramáticas situações de `deslocamento interno': nada menos do que 3 milhões de pessoas.

O jornalista do Estado, Anélio Barreto, diz que em Angola, hoje, depois de 25 anos de guerra civil, a guerrilha brutaliza todo o centro do país e cerca Huambo, ao sul, a cidade mais importante depois de Luanda, a capital, utilizando uma das armas mais odiosas, a fome, e o mais terrível alvo, a população civil.

Seu líder, Jonas Savimbi, procura com isso desestabilizar o governo e conquistar o poder. Morteiros são despejados, impedindo o pouso de aviões com suprimentos, e voluntários de associações humanitárias, que lá estão, começam a notar pessoas que não mais se escondem ou protegem quando isso acontece, relata a publicação brasileira.

Anélio Barreto, fala ainda das banalidades que um a guerra pode trazer, diz que, a expressão "feliz como pinto no lixo" não é verdadeira em Angola. Pintos, galinhas e galos ciscam pelos lixões, como em qualquer lugar do mundo, mas pouco bicam o chão: afinal, o que essas multidões de miseráveis angolanos deixam para eles, no corpo-a-corpo de todo dia? Mas, vá lá, alguma coisa encontram, porque não chegam a morrer de fome. E ai do motorista que, por suprema infelicidade, atropelar uma galinha. Será cercado por uma multidão e, se tiver sorte, muita sorte, escapará apenas com uns arranhões. O mesmo já não se dá com os cães, até porque as galinhas todos esperam crescer, botar ovos, criar pintos. Já os cães, quando a fome aperta, vão para a panela. Mas, antes da panela, o que pode encontrar um cão, no ponto mais infecto e nauseabundo de Luanda, que uma criança, ou um adulto, não tenha apanhado antes? Nada.

Já foi dito, mas vale repetir continua a reportagem do Estadão como é conhecido o jornal: são 3 milhões de refugiados de guerra, 3 milhões de deslocados, chafurdando pela cidade ao lado deles. E a gente vê aqueles poucos e pequenos sacos de ossos, focinho no chão, cambaleando pelas ruas, os que ainda cambaleiam. Mortos, parecem mais saudáveis: a morte os faz inchar.

A reportagem do " O Estado de São Paulo " se embreia na narração de um cenário que parece a de um filme de terror: Por falar nas tropas legalistas, uma de suas missões é mitigar a fome dos refugiados. Como não se pode viajar por terra pelo interior do país, infestado por minas, os soldados utilizam seus aviões, velhos Antonov e Ilyushin russos, para levar mantimentos aos pontos mais distantes.

São lugares em que há fome, mas fome mesmo, dessas que os jornais descrevem e ilustram com fotos de cadáveres ambulantes. Nesses postos de martírio, quando chega alguém de fora, vem logo um miserável a gritar "senhor, senhor, tem uma mulher morrendo de fome ali naquela casa". Se o visitante vai lá, e é um novato no assunto, toma o choque inevitável. A moribunda ou moribundo estará amparado por um parente, sem mais conseguir mover-se nem se manter em equilíbrio, os olhos semicerrados.

A prática já mostrou: se alguém quiser fazer alguma coisa por aquele farrapo, e não tiver mantimentos consigo, tem de lhe dar dinheiro, mas entregar nas mãos de quem o ampara. Se o der a qualquer outro parente, este irá cuidar do próprio estômago. O outro? Morre.

A distribuição de alimentos precisa ter uma certa ordem, e o povo é disposto em filas. Em uma dessas filas havia uma mulher com uma criança de colo. Eram várias mulheres com crianças, mas com aquela houve um fato diferente naquele dia, e que na verdade é comum acontecer. A criança estava doente. A mulher dava-lhe a atenção que podia - um olho nela, outro na fila. De repente, algo acontece. A mulher põe rapidamente a criança no chão, em pé, segurando-a pelos braços. E a criança começa a defecar sangue, fracos jatos de sangue.

A mulher não se impacienta. Com uma das mãos mantém a criança em pé, com a outra passa a alisar o cabelinho dela, penteando-o com as mãos. Seguia um ritual: deixava a criança arrumadinha para morrer. A morte não tardou. Morta a criança, a mulher a envolveu com um pano que trazia e aninhou-a no colo.

Mediu com os olhos o comprimento da fila: ela não podia deixar aquela fila.

E ninguém a deixaria avançar só porque tinha um filho morto nos braços, Conclui o jornalista