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Angola.Com

Mauricito Caetano
Colunista da Muangolê Notícias

Como se os Políticos Escutassem - Carta Aberta aos Políticos Angolanos - II

Ponto prévio: "...E o menino dissera aos senhores da corte, que afinal eram plebeus. Quisera saber onde viveis para bater a vossa porta..."

Claro que não é de plebeus que falamos nem eu sou mais menino. Sou um compatriota que crê, sem ser ingênuo, que pode roubar alguns minutos da vossa douta atenção e conversar.

Apenas isto, conversar. Eu tenho em idade e em desencanto, o que vossas excelências terão talvez em dedicação a causa angolana. Digo angolana para ser imparcial...

Ninguém é mais criança, ninguém é mais ingênuo, ninguém acredita mais na pureza Machista dos ideais.

O fervor púbere dos ideais há muito foi substituído pelo cantar das armas e gemidos gratuitos de morte. Os hinos que um dia foram de heroicidade e glória são hoje de desencanto e de derrota. Afinal, as vitórias são apenas momentos de dor, incredulidade e destruição.

Mas, talvez por não ser também mais adolescente, não ando a procura de culpas nem de culpados para o conflito que parece aos olhos de alguns não existir. Aliás não creio que os homens nele envolvidos aceitem algum dia bater no peito e dizer:

Por minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa. Temo apenas ter perdido a capacidade racional para compreender a escolha feita entre a agressão verbal e no fim a "cervejada" e a proposta fria da eliminação física e do ódio.

Ou não é esta a essência da guerra?

Não busco culpados dizia porque todos terão seiscentas mil razões para explicar o porque da mina, da bomba, do bombardeamento, terão seiscentas mil razões para explicar o porque de todos os órfãos de todos os mutilados de toda as viúvas. O porque de todos os queimados ou fuzilados.

Acredito inclusive que terão outros milhões de porquês para explicar porque que se compram tanques em vez de pão.

Hipocritamente excelências, todos falarão, exatamente com as mesmas palavras da moral da guerra, da nobreza dos generais, da valentia dos soldados e do patriotismo (patriotismo uma ova) das mães que além do marido e dos filhos perderam também a própria vida.

Concordarão vossas excelências, que vista assim a questão, do ponto de vista do avestruz, não adianta procurar culpas nem culpados. Qualquer juiz, comprado ou não dará o tal de "in dubio pr réu".

Outrossim, culpados não me interessam, não ando a caça deles. Não sou polícia nem me interessa a recompensa.

Concordo com o velho Zuzarte quando dizia que todo Homem é uma solução, o poder os torna problemas. Neto há quase vinte dissera algo parecido. O passado no entanto, parece não interessar.

A sabedoria quase sexagenária da média de vossas excelências dispensa-se do constrangimento de explicar aqui a teoria do avestruz e a postura do juiz. Seria até deselegante de minha parte.

Com o respeito que me merece vossas excelências, e as bandeiras desfraldadas que há tanto nos sufocam a alma, já conheceram dias melhores as teorias de que a guerra era em defesa do solo pátrio, da soberania, da cidadania, da democracia, por pleitos que talvez nunca estivemos realmente dispostos a respeitar e por tantos outros raios que há muito tempo se partiram.

Acreditem vossas excelências que todos estes raios já partidos e "idéias" que se foram, casam perfeitamente com os "idéias" de outras hipocrisias e não fosse esta página também aberta a público de idade menor, eu contaria aqui a história da pedra que um dia se moveu.

O nosso povo sábio nas suas lendas, legou-nos uma, que talvez vossas excelências não tenham tido a oportunidade de ouvi-la com a família à mesa. Era sobre o cão, a cauda e o destino e sobre a diferença entre o lobo e o homem. Cada dia me convenço mais que a lenda falava era da semelhança. Mas... não creio que todos entendamos assim.

Um político angolano, hoje decerto pouco encantado com as lides por onde andou, montou uma peça que apesar de tragicômica tem uma verosemelhança que impressiona. O enredo fala de um povo que com episódios de heroicidade e nobreza, de que afinal não sois dignos nem herdeiros, se transformara como que por um passo
de mágica, no esgoto da moral e da civilização, onde sem exemplo nas sociedades medievais as mães, antes heroínas, se prostituíam a troco de pão, quando não comiam os filhos e os reis regateavam a bala a "honra" das meretrizes. É um enredo de arrepiar o diabo.

Mas... quem liga para isso?

Um dia garoto ainda, ouvi de um artista moçambicano qualquer coisa parecida com um recado ao homem do Ocidente, recordando-o que o mundo não terminava a sua porta. Era o grito por solidariedade e comiseração da África para o Mundo. Mais de vinte anos passados o Ocidente parece ter dado a volta ao mundo, a história parece repetir-se e o na altura jovem artista moçambicano parece ser hoje o povo angolano.

Até quando "... As crianças nascerão velhas ao abraçarem sonhos impossíveis..."Haja cérebro de avestruz e estômago de pedra para olhar sem ver o que decerto Manuel Lima não pretendeu que se transportasse de forma tão real para o dia a dia dos angolanos, aquilo que em momento de melancólica inspiração ele idealizou como mera ficção.

De forma repetida os políticos angolanos depredam a confiança, o direito e a legitimidade de agir e falarem nome do povo. Prostituem a cada dia o idílio mais lindo do sonho, fazendo do voto de confiança e de civismo, um voto de morte e tragédia.

De forma inacreditavelmente irracional, mais algozes que defensores de algum ideal, optaram pela linguagem do fogo, contribuindo de forma gratuita para o extermínio de um povo já de si tão diminuto e indefeso.

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